Facção usou mortes em presídio como ‘marketing’ para expandir domínio no Acre

A rebelião aconteceu em julho de 2023/ Foto: Reprodução
A sentença que condenou oito integrantes de uma organização criminosa pela rebelião registrada em julho de 2023 na Penitenciária Antônio Amaro Alves, em Rio Branco, traz à tona detalhes inéditos sobre a atuação do Comando Vermelho (CV) antes, durante e após o motim que terminou com a execução de cinco detentos.
Nessa terça-feira (7), o ContilNet teve acesso, com exclusividade, à íntegra da decisão judicial. O documento reúne relatórios de inteligência, laudos periciais e transcrições de depoimentos que revelam um cenário muito mais complexo do que um simples confronto entre presos. De acordo com a investigação, a rebelião foi cuidadosamente planejada e executada de forma coordenada, evidenciando a estrutura organizacional da facção dentro e fora do sistema prisional.
Forças de Segurança se mobilizaram para conter a rebelião no Acre. Foto: Juan Diaz/ContilNet
A sentença aponta que a ação foi conduzida com planejamento estratégico e expôs fragilidades do sistema penitenciário acreano. As investigações concluíram que lideranças do grupo criminoso coordenaram as ações no interior da unidade e mantiveram comunicação constante com integrantes que atuavam do lado de fora do presídio durante toda a rebelião.
Os documentos também revelam que os impactos do massacre ultrapassaram os muros da penitenciária. Segundo os relatórios de inteligência anexados ao processo, o Comando Vermelho utilizou a violência da rebelião – bem como a morte de cinco detentos – como instrumento para consolidar sua força e ampliar sua influência em diferentes regiões do Acre.
A decisão judicial destaca que, nos meses seguintes ao motim, a facção expandiu seu domínio territorial. Integrantes de grupos rivais, entre eles membros do Bonde dos 13 (B13), passaram a migrar para o Comando Vermelho por temor de represálias. Um dos casos mencionados na sentença envolve o Bairro Bom Sucesso, em Sena Madureira, que, conforme os relatórios de inteligência, passou a ser controlado pela organização criminosa após a retirada de integrantes rivais.
Outro aspecto considerado pela Justiça foi o recrutamento crescente de adolescentes pela facção. Ao fixar as penas, o juiz reconheceu como circunstância agravante o uso de menores de idade para fortalecer a atuação criminosa, empregando-os na vigilância de territórios, manutenção de pontos de tráfico e apoio à expansão da organização fora do sistema prisional.
Para a Justiça, os elementos reunidos no processo demonstram que o motim serviu como ferramenta para fortalecer a organização criminosa, ampliar seu domínio territorial e intensificar o recrutamento de adolescentes em diferentes municípios do estado.
Presídio Antonio Amaro Alves/Foto: Secom
A condenação reforça que a rebelião de 2023 marcou um dos episódios mais violentos da história recente do sistema prisional acreano e evidencia que seus reflexos se estenderam muito além da Penitenciária Antônio Amaro Alves.
Condenação dos envolvidos na rebelião em presídio
Entre os condenados, figuras como “Diabo Vermelho”, que foi flagrado operando um fuzil roubado, receberam penas severas. Líderes como “Super Mario”, “Terror” e “M19” foram transferidos definitivamente para o Sistema Penitenciário Federal (SPF), cumprindo pena em celas individuais de Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
A ação penal foi proposta pelo próprio MPAC, com base em investigação conduzida por meio de procedimento investigatório criminal. O motim resultou na morte de cinco detentos.
Foram condenados Railan Silva dos Santos, Selmir da Silva Almeida Melo, Bertônio da Silva Lessa, Cleydvar Alves da Silva, James Oliveira Bezerra, Gelcimar Pinto de Macedo, Manoel Moreira da Silva e Paulo Roberto Araújo Campelo.
Cada um dos condenados recebeu pena de 12 anos e 10 meses de reclusão, a ser cumprida inicialmente em regime fechado, além do pagamento de 360 dias-multa. Somadas, as penas ultrapassam 102 anos de prisão.
A sentença foi proferida pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas da Comarca de Rio Branco. De acordo com a decisão, as provas reunidas durante a investigação demonstraram que dois dos condenados exerciam funções de liderança na organização criminosa, coordenando as ações durante a rebelião e conduzindo as negociações com as forças de segurança.
Em relação aos demais réus, a Justiça reconheceu a participação de cada um na organização criminosa com base nas funções desempenhadas e nas provas coletadas ao longo das investigações. Entre os elementos apresentados estão imagens de videomonitoramento, interceptações telefônicas e outros recursos técnicos.
Relembre – 26 de julho
Por volta das 11h da quarta-feira, 26 de julho, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) tomou conhecimento de uma possível rebelião instaurada no Presídio de Segurança Máxima Antônio Amaro. Treze detentos fizeram um preso, que exercia as funções de faxineiro no pavilhão, e um policial penal de reféns, resultando no ferimento do policial com um tiro de raspão no olho.
Os detentos tiveram acesso a um arsenal de armas guardadas dentro de uma sala no presídio. No primeiro dia de revolta, dois detentos deram entrada no Pronto-Socorro de Rio Branco, encaminhados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Os presos envolvidos na rebelião exigiram a presença do promotor da Vara de Execuções Penais na unidade prisional para negociar o fim da ação dos presos, que resultou em mortes e feridos. Segundo a Sejusp, após a chegada do promotor, os envolvidos solicitaram também a presença da imprensa acreana.
Mortos durante a rebelião/Foto: Reprodução
As negociações avançaram somente no dia seguinte, quinta-feira (27), quando, por volta das 10h, os presos se entregaram e o Bope finalmente conseguiu entrar no presídio. Ao entrar no complexo, a polícia confirmou a morte de cinco pessoas, sendo que três delas foram decapitadas, e a liberação de dois agentes que estavam como reféns.
Os cinco corpos foram levados ao Instituto Médico Legal (IML), que precisou fechar a via de acesso ao prédio para receber as vítimas fatais. Os mortos, três deles decapitados enquanto ainda estavam vivos, feridos e imobilizados a tiros, foram:Marcos Cunha Lindozo, conhecido como “Dragão”;
Francisco das Chagas Pereira, conhecido como “Ozim”;
Lucas de Freitas Murici, conhecido como “Pocoloco”;
Ricardo Vitorino de Souza, conhecido como “Ricardinho” ou “Anjo da Morte”;
e Davi Olimpio da Silva, conhecido como “Mendigo”.
Fonte: contilnetnoticias



